Luxação do ombro: por que ele volta a sair e quando pensar em cirurgia

"Saiu, colocaram no lugar e eu voltei a jogar na semana seguinte." Ouço isso com frequência, geralmente de alguém jovem que está no consultório porque o ombro saiu de novo. Colocar o ombro no lugar resolve a urgência, mas não conserta o que se rompeu lá dentro.
O que acontece numa luxação
O ombro é a articulação com mais movimento do corpo, e paga um preço por isso: a cabeça do úmero é bem maior que a cavidade onde se apoia (a glenóide). Na luxação mais comum, o braço está levantado e girado para fora, num bloqueio, numa queda ou num arremesso, e a cabeça do úmero escapa para a frente.

Nesse caminho, a cabeça do úmero costuma arrancar o lábio da glenóide (o labrum), uma borda de tecido que funciona como um "para-choque" e ajuda a manter o ombro centrado. É a chamada lesão de Bankart. Também pode haver um afundamento na cabeça do úmero (lesão de Hill-Sachs) e, em alguns casos, perda de um pedaço de osso da própria glenóide.

Por que o ombro volta a sair
Sem o "para-choque", o ombro fica mais fácil de escapar de novo, e cada nova luxação tende a aumentar o estrago na cartilagem e no osso. O risco de repetição depende muito da idade e da atividade. Num estudo clássico com jovens cadetes militares tratados sem cirurgia (Wheeler e colaboradores, 1989), a luxação voltou a acontecer em 92% deles. É um grupo específico, não uma previsão para todos, mas mostra por que o jovem que pratica esporte merece uma avaliação cuidadosa já depois do primeiro episódio.
Quem tem mais risco de nova luxação
Jovens, especialmente abaixo dos 25 anos.
Quem pratica esporte de contato ou com o braço acima da cabeça: futebol (goleiro), rugby, jiu-jitsu, vôlei, handebol, natação.
Quem já teve mais de um episódio.
Quem tem perda de osso na glenóide nos exames.
Depois dos 40 anos, a preocupação muda: a luxação repete menos, mas aumenta a chance de ter rompido junto o manguito rotador ou de ter lesionado um nervo. Se o braço continua fraco semanas depois, isso precisa ser investigado.
Como é feito o diagnóstico
Na urgência, o raio-X confirma a luxação e descarta fraturas antes e depois de colocar o ombro no lugar. Depois, o exame físico avalia estabilidade, força e nervos. A ressonância mostra o labrum, a cartilagem e o manguito, e a tomografia ajuda a medir com precisão a perda de osso, que é decisiva para escolher o tratamento.
Tratamento sem cirurgia
Depois da redução, o braço fica em tipoia por um período curto, e em seguida vem a fisioterapia para recuperar movimento, força e controle do ombro. É uma opção válida para muitas pessoas, principalmente com menor demanda esportiva ou mais velhas. O retorno ao esporte deve ser gradual e só depois de recuperar força e confiança no movimento.
Quando a cirurgia entra na conversa
Luxações que se repetem ou sensação de que o ombro "vai sair" em certos movimentos.
Jovem atleta de alto risco, em que a conversa pode começar já depois do primeiro episódio.
Perda de osso significativa ou lesões associadas, como ruptura do manguito.
Na maioria dos casos, o reparo é feito por artroscopia: o labrum é refixado à borda da glenóide com pequenas âncoras. Quando falta osso, pode ser necessário um procedimento que reconstrói a borda da glenóide, como a cirurgia de Latarjet. A escolha depende do exame, das imagens e do esporte de cada pessoa, e toda cirurgia tem riscos e recuperação que precisam ser discutidos antes, com calma.
Quando procurar um especialista
Se o ombro saiu do lugar, mesmo uma vez, vale uma avaliação com ortopedista de ombro antes de voltar ao esporte. Se já aconteceu mais de uma vez, ou se o braço ficou fraco ou dormente, não espere a próxima. E, no momento da luxação, procure atendimento de urgência: não tente colocar o ombro no lugar por conta própria.
Atendo no Einstein Morumbi e por teleconsulta. Se quiser entender o seu caso, é só chamar pelo WhatsApp: (11) 91416-7579.
Dr. Rogério Serpone Bueno · Ortopedia e Traumatologia, Cirurgia do Ombro e Cotovelo · CRM/SP 105.133 · RQE 23065. Este texto tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. Imagens ilustrativas.




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